O que é COE: Certificado de Operações Estruturadas

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O mercado de investimentos no Brasil vive uma grande evolução de produtos e investimentos. E a baixa atual da taxa de juros favorece ainda mais a criação de novos produtos.

Toda vez que vemos algum movimento grande de algum mercado (como dólar, inflação e bolsa), uma modalidade de investimento vira moda: o famoso COE, muitas vezes conhecido como Investimento de Capital Protegido.

Fui questionado por diversos amigos sobre este produto oferecido por gerentes de banco e até assessores de investimento, que tem possibilidades de altos retornos e ao mesmo tempo baixo risco, ou seja, o melhor dos mundos.

Um colega de mercado ainda definiu bem por que o COE era interessante: “as pessoas querem um jeito de tomar pinga e não ter ressaca”

Mas será que é tão milagroso assim?

Como sempre, vamos fazer as contas.

O que é Certificado de Operações Estruturadas

O COE existe faz um tempo nos Estados Unidos sob o nome de Notas Estruturadas, e foi regulamentado para distribuição ao público em geral no Brasil só em 2014, mas existe aqui (de formas parecidas) faz um tempo.

Ele nada mais é que um pacotão de operações mais complexas, que envolvem diferentes ativos e posições.

Mas o que importa pro investidor comum é saber suas regras.

O COE sempre tem algumas condições para se valorizar ou não, e também um prazo para terminar ou para que alguma condição seja satisfeita.

Seu retorno depende de diversos fatores e variáveis e ele possui basicamente 2 tipos:

  • Capital em risco: há a possibilidade de perda de capital
  • Capital protegido: no pior dos casos o investidor tem o retorno do capital inicial investido. Por esta característica este produto tem um apelo de “não ter risco”

Não entendi direito o que é COE

Realmente não é tão simples assim. A dificuldade em explicar o que é um COE é porque as possibilidades são infinitas. Cada COE é bem diferente de outro, por isso a melhor forma de explicar é dar um exemplo.

Exemplo real de um grande banco que eu mesmo recebi de meu gerente:

COE de dólar – “Ganhe de 8% a 18% no vencimento, atrelado à variação do dólar”

Premissas – em 1 ano, se o valor do dólar:

  1. Valorizar mais que 8%, você recebe a valorização, até um máximo de 18%
  2. Desvalorizar ou valorizar até 8%, você recebe o retorno de 8%.

Parece um produto perfeito, não parece? Tenho ganhos se o dólar subir, e se ele cair ou subir pouco, tenho o retorno garantido de 8%.

Vamos analisar melhor: Considerando um CDI de 1 ano de aproximadamente 14%, temos que esse investimento só valerá a pena se o dólar subir mais que 14%. Outra característica é que estamos trocando a possibilidade de alta acima de 18% pela proteção contra perda de capital, ou valorização abaixo de 8%.

Conclusão: Vale a pena investir em um COE?

Sempre lembre que os seus interesses e do banco dificilmente são alinhados. Ou seja, para quem emite/vende (o banco) vale a pena, é óbvio. Senão este produto não existiria, certo?

Agora para você investidor a resposta é que provavelmente não vale a pena. De qualquer maneira, é preciso fazer as contas e pensar no que você acredita.

Na essência, este tipo de investimento é uma aposta em um movimento do mercado. E por mais que seja de Capital Protegido, não podemos esquecer do custo de oportunidade, que é muito alto em um país com juros tão altos.

Lembra desse artigo (custo de oportunidade)? Qualquer ganho abaixo do CDI é considerado perda de dinheiro, então porque não considerar isso como um “risco”?

O fato é que o COE pode até ser interessante em alguns casos, mas longe de ser milagroso.

E o nosso exemplo, vale a pena?

Minha opinião é que não, mas vamos analisar juntos os retornos possíveis do nosso exemplo.

Imaginando um Dólar a R$ 3,50 (valor na época que me ofereceram este COE) e um CDI de 14%:

  1. Variação negativa: Retorno constante de 57% do CDI
  2. Variação de 0% até 8% (R$ 3,78): Retorno constante de 57% do CDI
  3. Variação entre 8% e 14% (R$ 4,00): Retorno crescente até 100% do CDI
  4. Variação entre 14% e 18% (R$ 4,13): Retorno crescente até 128% do CDI
  5. Variação acima de 18%: Retorno constante de 128% do CDI

Tudo isso em um prazo de 1 ano.

Fica fácil entender agora que este COE vale a pena nas situações 4 e 5, mas principalmente na 4. Na situação 5 trocamos a possibilidade de ganhar mais (caso o dólar suba mais que 18%) pela proteção caso ele perca valor.

Resposta:

Tudo depende da aposta do investidor. Se ele acreditar que o dólar neste caso iria subir um pouco mais que R$ 4,00 em 1 ano, então é um bom investimento. Isto porque mesmo se ele errar feio, o retorno mínimo garantido ainda é 8%, que, por mais que seja apenas 57% do CDI, ainda é melhor do que perder dinheiro.

Agora, se o investidor acha que o dólar não vai subir tanto, ou que vai subir mais que 18%, há melhores investimentos disponíveis.

Como já falei, eu pessoalmente acho que a relação retorno x risco é baixa. Se eu acertar minha aposta na mosca, o meu retorno máximo é 128% do CDI. E se eu errar feio, meu retorno mínimo é 57% do CDI.

Neste caso eu prefiro investir em um título ou fundo de renda fixa que me renda algo a próximo a 110% do CDI (com liquidez) ou perto de 120% (sem liquidez). Nestes casos o retorno esperado é maior.

Voltando a frase do meu amigo, poderíamos complementar a definição de COE: “as pessoas querem um jeito de tomar pinga e não ter ressaca, mas para isso acabam não ficando bêbadas”. Isto é, talvez você esteja “protegido” do risco de perder dinheiro, mas também será mais difícil ganhar mais que o custo de oportunidade.

Mas a taxa de juros não é mais 14%

É verdade, a taxa de juros neste momento está em queda.

Quando me ofereceram este COE (e quando eu escrevi este artigo) a taxa de juros era 14%, por isso o produto estava ajustado para esta taxa. Então será que agora o COE vale a pena? Provavelmente não.

Um COE oferecido hoje será ajustado a taxa atual de juros, ou seja, o resultado esperado relativo será semelhante.

Se quiser, deixe nos comentários os detalhes do retorno do COE oferecido a você.

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Vitor Nagata é editor do Blog do Investidor e profissional da área de investimentos.

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Formado em Engenharia Mecânica na Poli/USP e com pós-graduação em Administração na FGV/EAESP, trabalha com investimentos desde 2008. Atualmente é sócio da Sparta Fundos de Investimento e editor do Blog do Investidor. Possui a certificação CPA-20, CFP® e CGA

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18 COMENTÁRIOS

  1. Recebi estes 2 COES por e-mail e achei melhor o primeiro. Será que estou certo?
    COE HYG US
    O High Yield Corporate Bond (HYG US), é um ETF que segue o desempenho de títulos de renda fixa emitidos por empresas americanas denominadas High Yield, ou seja, as que pagam a maior taxa de juros para seus investidores. Esse ETF chama atenção também por ser gerido pela Black Rock, maior gestora de ativos do mundo.

    Como funciona:

    1 – Você investe no ETF HYG US.

    2 – O investimento dura 5 anos.

    3 – Você ganha no mínimo 42% nos 5 anos, quase o dobro da inflação projetada.

    4 – Se o HYG subir, você ganha 42% mais a valorização do mesmo. Se o HYG cair, você recebe os 42% pré-acordados.

    5 – Investimento mínimo R$ 15.000,00

    6 – Adesão até 28/03.

    COE S&P500
    O S&P500 é um índice composto pelas 500 maiores empresas da bolsa americana. Nos últimos 10 anos teve queda apenas em 2008 e nos últimos 5 rendeu 86%.

    Como funciona:

    1 – Você investe no índice das ações americanas S&P500.

    2 – O investimento dura 5 anos.

    3 – Você ganha no mínimo 21,5% nos 5 anos, o suficiente para cobrir a inflação.

    4 – Se o S&P 500 subir, você ganha 21,5% mais a valorização do mesmo. Se o S&P 500 cair, você recebe os 21,5% pré-acordados.

    5 – Investimento mínimo R$ 15.000,00

    6 – Adesão até 28/03.

    • Jose Roberto, muito obrigado pelo comentário!
      Vamos analisar o primeiro então: você tem garantido 42% em 5 anos (o que dá 7,3% ao ano), e o quanto render o HYG você ganha a mais, parece muito bom!
      Com o CDI de hoje de aproximadamente 12% (ele vai cair mais, mas vamos considerar que você ainda consegue comprar um pré de aproximadamente 12% hoje), então temos que para igualar com o CDI, o HYG teria que valorizar no mínimo uns 5% ao ano. E isso pra simplesmente igualar ao CDI.
      O histórico do HYG (http://www.etf.com/HYG) é o seguinte: em 1 ano ele rendeu 12,9% (ótimo), mas em 3 anos ele rendeu apenas 2,59% (0,9% ao ano) e em 5 anos ele rendeu +4,93% (1,0% ao ano).
      Conseguiu entender como não é tão milagroso assim? Mas isso não significa que o produto é ruim, é claro.
      Abs!

  2. Prezado Vitor.
    Contratei o seguinte COE, numa época que achava que a inflação ia disparar. De fato ocorreu um grande aumento da inflação, mas agora ela está em queda. Não sei analisar se estou fazendo um bom negócio agora que a minha expectativa de inflação ascendente foi desfeita.
    Data de Início: 10/03/2015
    Data de Vencimento: 15/08/2018
    Resultado Máximo: Valor da Aplicação corrigido por 202,00%da variação positiva acumulada do IPCA
    Resultado Mínimo: o Valor da Aplicação corrigido por uma taxa pre-fixada de 40,55% ao período

    • Pedro Paulo, muito obrigado pelo comentário!
      Muito interessante este COE. Para uma aposta de explosão de IPCA ele parece ser um bom investimento. Mas vamos analisar:
      Anualizando o retorno de 40,55% no período total temos 10,4% ao ano. Pegando o IPCA mês a mês desde março de 2015 até Janeiro de 2017 temos 13,72% e anualizando temos 6,9% ao ano. Ou seja, o retorno até agora deste COE seria de cerca de 14% ao ano (“resultado máximo”).
      Se considerar que o CDI estava próximo disso nos anos anteriores, então é razoável imaginarmos que o retorno dele foi bem próximo ao CDI. E que agora a inflação e os juros tendem a diminuir de forma proporcional, e não mudar muito esta relação.
      Conclusão: É fácil analisar se era ou não um bom investimento depois que o movimento aconteceu, mas a verdade é que os produtos estruturados do banco já são desenhados de uma forma que dificilmente o valor esperado será maior que o CDI. De qualquer forma, este COE era interessante baseado em sua “aposta” de disparada da inflação. Mas também podemos considerar a possibilidade de que, se a inflação disparasse, talvez os juros também subiriam, o que também não alteraria muito a relação…
      Abs!

  3. Eu fiz um COE no Santander atrelado à subida do dolar. O dolar da compra é diferente do da venda. Não lembro o nome. Mas a diferença é grande.

  4. Olá, Vitor. Conheci agora o site e estou gostando muito.

    Por favor, você pode ajudar nesse cenário aqui?

    Estive vendo alguns COEs que não são anuais, mas semestrais. Hoje o DI está menor que esses 14% (vai ser de uns 12,5% esse ano?).

    Os COEs que vi, estão por volta das seguintes proporções semestrais:
    1o semestre: entre 7 e 9%.
    2o: entre 14 e 18%.
    3o: entre 21 e 27%.
    4o: entre 28 e 36%.

    Há o IR com taxa regressiva.

    Parece-me que os ganhos, por serem semestrais, são superiores à renda fixa, se o objetivo for atingido no primeiro semestre (a operação é encerrada assim que se atinge o objetivo). Já se for nos outros períodos, é similar ou mesmo abaixo de investimentos com percentuais acima do DI, já que o rendimento de um CDB vai ser mensal.

    Você pode ajudar um leigo nessa conta?

    Muito obrigado!